Primeiro data center de IA na Amazônia gera debate por risco de ‘ilhas de calor’ e expõe ausência de regras específicas no Brasil

  • 09/08/2026
(Foto: Reprodução)
Belém terá o 1º data center de IA da Amazônia A área portuária de Miramar, no bairro do Barreiro, em Belém, vai receber o primeiro data center para Inteligência Artificial da Amazônia, o BEL1, da Elea Data Centers. O projeto é alvo de um inquérito civil do Ministério Público do Pará (MPPA), que alerta para o risco de formação de "ilhas de calor" em uma região já castigada por temperaturas extremas. O empreendimento também chama atenção para a ausência, no Brasil, de regras ambientais específicas para a instalação de data centers. 🔎 Data centers (centro de dados, em inglês) são galpões que concentram milhares de supercomputadores. Para processar grandes volumes de dados, essas máquinas consomem muita energia e geram calor continuamente. Por isso, dependem de sistemas de resfriamento para espalhar esse calor para o ambiente. O projeto vai iniciar com a capacidade de 7,5 megawatts de energia, depois tem previsão de expansão para até 100 megawatts, segundo a empresa. Esses números chamam a atenção de especialistas ouvidos pelo g1, pois só na etapa inicial a potência de 7,5 megawatts seria suficiente para abastecer mais de 22,5 mil residências na região Norte, de acordo com dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Energética (EPE), do Ministério de Minas e Energia. Com previsão de começar a funcionar no segundo trimestre de 2027, a empresa Elea promete que o BEL1 vai servir como a infraestrutura necessária para ampliar o acesso da região Norte à IA, à computação em nuvem e a serviços digitais, "aproximando o processamento de dados dos usuários e reduzindo a dependência de servidores em outras regiões do país e até no exterior". ✅ Receba as notícias do g1 Pará direto no WhatsApp Calor dissipado em região quente A chegada da infraestrutura levanta questões sobre possíveis impactos ambientais. O empreendimento virou alvo de um inquérito civil do MPPA, sobre os potenciais riscos de criar 'ilhas de calor', que superaqueceriam o ambiente urbano, além da ausência de licenciamento ambiental e consultas públicas. O promotor Márcio Maués, 1ª Promotoria de Justiça de Barcarena, quer apurar a legalidade da instalação e os riscos de "dano climático". A preocupação dele baseia-se em estudo de pesquisadores da Universidade de Cambridge, indicando que data centers podem elevar a temperatura da superfície terrestre em uma média de 2°C, com picos extremos que chegam a 9,1°C, estendendo efeitos térmicos por raio de até 10 km. O novo data center na Amazônia Arte g1 "Não basta afirmar que não trará consequências, não basta afirmar que será bom. Tem que ser demonstrado tecnicamente", alerta o promotor Maués. A pesquisa de Cambridge utilizou dados de satélite da NASA para monitorar a temperatura da superfície terrestre no entorno de mais de 8 mil data centers de IA ao redor do mundo entre 2004 e 2024. Os resultados apontaram um aumento médio de 2,07°C na temperatura da superfície terrestre logo após o início das operações dessas estruturas. Os cientistas identificaram que o efeito térmico se propaga por até 10 km, mas sua intensidade decai rapidamente com a distância. O aquecimento médio do solo fica em torno de 1°C em um raio de até 4,5 km das instalações, segundo os resultados. Maués destaca ainda a vulnerabilidade de comunidades ribeirinhas nos arredores da cidade, como a Ilha das Onças, situada a apenas 4,5 km do local. Segundo ele, essas populações não foram ouvidas conforme exige a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Não foram realizadas consultas públicas com moradores dos bairros Miramar, Barreiro, Sacramenta e Pratinha, que ficam próximos ao local da instalação. "O efeito depende da tecnologia utilizada, mas é algo que precisamos estar atentos. Não acho que seria o caso daqui de Belém, aumentar 9°C, mas é preciso demonstrar se haverá efeito de aumento da temperatura ou não, e em qual proporção", defende o promotor. O empreendedor e ambientalista Murilo Monteiro é morador do bairro da Sacramenta e disse que acompanha com atenção as discussões sobre o projeto. "Ainda não houve comunicação dirigida à comunidade local nem às instituições que atuam no território. Essa ausência de diálogo gera dúvidas e demonstra a necessidade de ampliar a transparência e a participação social desde as fases iniciais do empreendimento", afirmou. O pesquisador Juliano Ximenes, da UFPA, concorda com a preocupação, detalhando que estruturas de data center dissipam energia na forma de calor, elevando a temperatura externa em uma área que frequentemente já atinge sensações térmicas de 34°C ou mais, gerando "manchas de calor". A empresa afirma que usará sistemas de ar-condicionado para resfriar os equipamentos, em vez de água. É a chamada "expansão direta", um tipo de refrigeração industrial bastante utilizado em data centers. O fundador e CEO da Elea, o italiano Alessandro Lombardi, diz que estudos de impacto térmico mais profundos só seriam realizados para a fase de 100 MW, que ainda não tem data para sair do papel. "Quando se constrói um data center maior, eu penso que essa sugestão de ouvir a sociedade tem que ser vista, mas não nesta fase atual do projeto, que eu posso garantir que não tem nenhum impacto. Será como um shopping center de médio porte, que ainda consome muito mais calor do que um data center deste tamanho na fase inicial", ele afirma. Projeto da Elea Data Centers em Belém. Reprodução / Elea Data Centers Para além da temperatura, especialistas alertam para outros possíveis desequilíbrios. O professor Ximenes aponta que manter o resfriamento contínuo dessas máquinas pode gerar uma poluição sonora "severa": enquanto a Lei Complementar de Controle Urbanístico de Belém limita ruídos a 65 dB, o entorno de data centers pelo mundo pode atingir 96 dB. Lombardi garante que o projeto prevê mecanismos de redução de ruídos. "O ruído eventualmente é dos geradores a diesel, e não do data center em si. Esses geradores emitem um som medido em decibel e ele tem uma legislação sobre o barulho. A contingência a estes ruídos está prevista." Sem regras no Brasil No Brasil, não há regulamentação específica para instalações de data centers, ou seja, não existem leis ou diretrizes ambientais criadas sob medida para avaliar o impacto de energia e calor desse tipo de tecnologia. Data Center é o tema da série sobre questões urgentes da agenda ambiental brasileira A Elea adquiriu um terreno em área industrial privada da Axia Energia e afirma que segue os trâmites gerais de licenciamento para grandes consumidores de energia. Já órgãos ambientais de Belém e do estado do Pará dizem que não possuem pedidos de licenciamento sendo analisados. "A sensação que nos transmite é que o projeto já está definido e que todas as etapas de licenciamento ficam em segundo plano, como se fossem meras formalidades", alerta Maués. A empresa Elea disse, em nota, que "as licenças ambientais e demais autorizações necessárias ao empreendimento estão sendo solicitadas dentro dos prazos e trâmites legais e em linha com os investimentos anunciados". A Secretaria de Meio Ambiente de Belém (Semma) informou, em ofício de julho de 2026, que não há processo de licenciamento ambiental para o empreendimento e, por isso, não existem estudos de impacto de vizinhança (EIV) nem relatórios de impacto ambiental (RIMA). A Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Pará (Semas-PA) também afirmou ao g1 que não possui processo de licenciamento em andamento para o data center. Já a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) disse que não adota tratamento diferenciado para data centers de IA e que ainda estuda possíveis exigências relacionadas à infraestrutura da rede elétrica. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) foi procurado pela reportagem para explicar se está previsto algum impacto da carga prevista de 100 MW na rede local, mas não se manifestou. Além do espaço, a energia usados pelo data center também será fornecida pela Axia Energia, geradora e fornecedora que atua no Pará com infraestrutura de 81 usinas e responde por 17% da capacidade de geração do país. O centro de dados ficará em uma área alugada na propriedade da Axia; e a energia para alimentar os data centers será adquirida diretamente da fornecedora, sem envolver impactar o Sistema Integrado Nacional (SIN), segundo as duas empresas. O CEO da Elea informou a escolha foi "estratégica" devido à proximidade à subestação de energia Miramar, gerenciada pela Axia, antiga Eletrobras/Eletronorte. Lombardi afirma que a região Norte é uma grande produtora de energia hídrica renovável, com as usinas hidrelétricas, por exemplo, mas a falta de um "consumidor estável" de grande porte pode gerar desbalanceamento e instabilidade na rede local. O que o data center fará? Segundo a empresa, o data center será uma "infraestrutura de base necessária para que a Inteligência Artificial funcione de forma eficiente na região Norte". O local funcionará como um "motor" para facilitar o acesso não apenas às tecnologias de IA, mas também aos serviços de nuvem (cloud) e conectividade. "O objetivo do data center é fomentar o ecossistema de inovação na região", explica o CEO. De acordo com ele, é uma resposta ao "atraso" tecnológico da região, que atualmente depende de conexões via São Paulo até Miami. O prédio também abrigará a infraestrutura para processar transações bancárias, como TEDs e Pix, prontuários eletrônicos de hospitais, sistemas do Tribunal de Justiça e a empresa disse que o centro de dados na região garantirá que o sinal de operadoras de 4G e 5G não sofra quedas. 🔎 Atualmente, operações simples como um Pix ou o acesso a um prontuário médico no Norte dependem de uma rota física de dados gigantesca. As informações viajam por terra até São Paulo e seguem por cabos submarinos para processamento em Miami, nos Estados Unidos, antes de retornar ao Pará. Esse percurso dos dados gera "atraso tecnológico" e deixa as conexões vulneráveis a quedas, segundo a Elea. A empresa explicou que os usuários do BEL1 serão gigantes do mercado. A empresa confirmou que já possui clientes âncora de grande porte, como empresas de tecnologia e nuvem, cujos nomes são mantidos sob sigilo comercial. O professor da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) e cientista da computação, Marcus Braga, afirma que o debate não é apenas técnico, mas de soberania digital. "A inteligência artificial é a nova eletricidade. O mundo atual não consegue mais viver sem ela", afirma. Braga defende que a instalação é uma oportunidade de "chaveamento tecnológico" para um estado onde a internet no interior ainda é "precária". Para quem fica a inovação? Para evitar que o Pará sofra um novo ciclo de "extrativismo tecnológico", apenas fornecendo o espaço para o empreendimento, sem contrapartidas, o professor Marcus Braga da Ufra defende que o estado exija reservas de capacidade. "O Estado poderia exigir, por exemplo, 10% da carga de processamento para que possa utilizar essa infraestrutura para setores estratégicos, como saúde e monitoramento ambiental", propõe Braga. O debate sobre o BEL1 em Belém reflete um dilema global adaptado à realidade amazônica: o equilíbrio entre a necessidade urgente de desenvolvimento digital e a proteção de um microclima já severamente castigado. Um levantamento, exclusivo do g1, mostrou que Belém foi a segunda cidade com o maior número de dias castigados pelo calor atípico em 2024. Para o professor Juliano Ximenes, a falta de clareza reforça a urgência de regulamentar o uso de IA e exigir transparência das transnacionais. "Sem isso, o neoextrativismo fará novos e maiores buracos degradados, reais e virtuais, no século que apenas começa", explica. LEIA TAMBÉM: Como funciona um data center? E por que ele pode consumir tanta energia e água? Análise: Data centers podem fazer de países do Sul Global novas colônias digitais O que diz a empresa A Elea Data Centers disse, em nota, que "o projeto está sendo implantado em área industrial privada, dentro do Centro de Tecnologia da Axia Energia" e que a previsão de início das operações "reflete o cronograma de desenvolvimento do projeto, alinhado à implantação da infraestrutura e à entrada de seus clientes, permanecendo condicionada ao cumprimento de todas as etapas do processo de licenciamento e às aprovações dos órgãos competentes". Ainda segundo a empresa, ainda "está sendo desenvolvida a estratégia de relacionamento com as comunidades do entorno, com previsão de mapeamento das lideranças locais, a apresentação do projeto e a criação de canais permanentes de diálogo". A Elea afirmou ainda que "não foi formalmente notificada pelo MPPA" e que "permanece à disposição para colaborar com as autoridades, prestar os esclarecimentos necessários e cumprir integralmente todos os requisitos aplicáveis ao empreendimento". Área onde ficará o data center de IA da Elea em Belém. Ponto específico no mapa não foi informado. Reprodução / Google Maps Ilustração mostra projeto da Elea Data Centers em Belém Reprodução / Elea Data Centers VÍDEOS: veja todas as notícias do Pará Leia mais notícias do estado no g1 Pará

FONTE: https://g1.globo.com/pa/para/noticia/2026/08/09/primeiro-data-center-de-ia-na-amazonia-gera-debate-por-risco-de-ilhas-de-calor-e-expoe-ausencia-de-regras-especificas-no-brasil.ghtml


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